#A_POSTA

Jorge Silvério:
«Falhar o planeamento é planear o falhanço»

Jorge Silvério

Psicólogo da Seleção Nacional de futsal

29 de Maio de 2018

Na preparação para uma grande competição há um conjunto muito alargado de factores que é preciso considerar e planear sob pena de ficarmos mais perto do fracasso.

Falhar o planeamento é planear o falhanço.

Esta é uma máxima que deve nortear tudo aquilo que rodeia a preparação para uma grande competição desde o pormenor mais ínfimo até ao planeamento dos treinos e dos jogos. Assim, o primeiro factor a considerar será o objectivo que se pretende atingir nessa competição, uma vez que desde o momento zero toda a comunicação de todos os envolvidos deve veicular a mesma mensagem desde o técnico de equipamentos até ao líder máximo da comitiva. Definido o objectivo, é necessário pensar em todos os passos para o atingir e em todos os obstáculos previsíveis para saber como os ultrapassar caso eles surjam. Já Séneca salientava que “quando se navega sem destino qualquer vento é desfavorável”.

A definição do programa de actividades deve ser realizada com particular cuidado, estipulando tempo para o treino físico, técnico, táctico e mental, para o necessário descanso, alimentação adequada e correcta e para a recuperação fisiológica e só depois para outras actividades necessárias hoje em dia, mas que não devem interferir com as atrás referidas (promoção, divulgação, marketing, relações públicas, etc.).

Normalmente, muitas das grandes competições ocorrem no fim de uma época extremamente desgastante e torna-se muito importante que os atletas estejam na melhor forma possível, devendo-se trabalhar os factores mentais, de maneira a que a tenacidade (capacidade de enfrentar situações difíceis e lidar com a adversidade) dos atletas e a sua motivação estejam ao máximo. Trabalhar as suas capacidades técnicas, tácticas, físicas e psicológicas de maneira a que a tenacidade seja incrementada. Trabalhar no treino todas as situações previsíveis de ocorrerem num jogo confrontando cada atleta com situações difíceis e adversas que lhe permitam aprender a ultrapassá-las. Trabalhar a auto-confiança de cada um, a capacidade de lidar com a ansiedade (não basta dizer que é preciso ficar menos ansioso). Trabalhar factores como a concentração, a auto-eficácia e a auto-estima. Acompanhar cada atleta de forma individualizada para saber como ele está a reagir às notícias de possíveis transferências e à ausência prolongada do contacto familiar. Promover e reforçar o espírito de grupo dentro da equipa apesar das inevitáveis “azias” devido ao facto de se ser suplente ou titular e de isso poder significar um contrato financeiramente mais ou menos proveitoso. Potenciar um conhecimento profundo dos adversários para que cada atleta possa prever e planear a sua atitude competitiva. Finalmente treinar os atletas para as condições ambientais que vão encontrar e para o que significa lidar com os espectadores, os adeptos mas também com a comunicação social. Tudo isto exige muito trabalho planificado e não esperar que surja algum milagre. Não nos podemos esquecer que a sorte favorece as mentes preparadas, como enfatizava Pasteur!

Existem muitas áreas onde a Psicologia do Desporto pode ser útil: diminuição da ansiedade, aumento da auto-confiança, atenção e concentração, motivação, liderança, relação treinador-atleta, coesão (espírito de equipa), esgotamento (burnout), sobre-treino, recuperação de lesões, imaginação e visualização mental e controlo da dor.

Em países onde a Psicologia do Desporto está mais disseminada fala-se cada vez com mais intensidade da preparação psicológica à qual se atribui uma importância ao nível das preparações técnica, táctica e física. Se pensarmos, apenas um pouco, chegamos à conclusão que é uma loucura gastar milhares de horas e consequentemente milhões de euros com a preparação técnica, táctica e física e descurar a preparação emocional e mental que podem deitar todo esse esforço “por água abaixo” em instantes.


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