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Luís Cristóvão: Quando a transferência altera o valor do coletivo

Luís Cristóvão

Analista de futebol e comentador desportivo.

26 de Outubro de 2018

Num futebol dominado pela constante necessidade de intervenção no mercado de transferências, para reforçar a equipa ou reduzir o impacto da folha salarial, as novas regras da FIFA visam um maior controlo sobre os negócios e uma melhor distribuição dos lucros. Olhando para a forma como o dinheiro influi no sucesso desportivo, analisamos em que período a alteração do valor das equipas poderá ser mais complexa para o apostador.

FIFA prepara regulação do mercado

Terá sido recebido com algum nervosismo o rumor de que a FIFA prepara uma nova proposta para a regulação do mercado de transferências. O organismo tem tido, ao longo dos anos, uma participação moderada nesta área de atividade, encerrando os períodos de transferências em duas janelas temporais, mas ainda sem grande intervenção no que são os preços e a participação dos agentes neste negócio.

Poderá ser aí que a FIFA poderá vir a agir. Em primeiro lugar, sugerindo uma análise aos preços de transferências, através da utilização de um algoritmo, que definiria o valor de mercado do jogador. Em segundo lugar, através de uma centralização dos pagamentos, tornando mais clara a origem e o destino do dinheiro, salvaguardando os interesses dos clubes formadores. São ideias que visam impor um punho de ferro no controlo do mercado, evitando a especulação lançada por vários clubes que apresentam pouca sintonia entre as receitas obtidas e os gastos apresentados.

As Ligas do dinheiro

Hoje em dia, quando estabelecemos um ranking de Ligas, podemos facilmente encontrar um nexo entre o dinheiro, a capacidade de atração dos melhores jogadores e o sucesso desportivo. No topo das Ligas mais gastadoras, a Premier League bate toda a concorrência, tendo gasto, nos últimos cinco anos, quase o dobro da Série A italiana, que está em segundo lugar. O sucesso da estratégia comercial do futebol inglês permite-lhe este excesso, já que aos cerca de 8,8 mil milhões de euros gastos pelas equipas da Premier League, podem juntar-se os 1,24 mil milhões em aquisições das equipas do Championship, a segunda divisão. Acima dos mil milhões encontramos ainda a LaLiga espanhola, a Bundesliga alemã, a Ligue 1 francesa e a Superliga chinesa, num mapa claro de onde se concentra o dinheiro.

Também será fácil de entender que o caminho deste mesmo dinheiro se realiza quase em circuito interno dentro deste núcleo. No topo das Ligas que mais faturam com vendas de jogadores está, de novo, a Premier League inglesa, com o pódio a completar-se igualmente com Série A italiana e LaLiga espanhola. A diferença acaba por se notar no desaparecimento da Superliga Chinesa dos primeiros dez lugares, algo compreensível, tendo em conta o contexto da competição e a sua atual necessidade de procurar valores para fazer crescer a cotação do próprio campeonato. Assim, entre os cinco países que mais gastam e mais recebem, criam-se naturais dinâmicas negociais que permitem o aumento do seu nível competitivo em detrimento de restante concorrência.

Concorrer ou participar

Caso se confirmem parte das novas propostas da FIFA, a questão poderá colocar-se exatamente a este nível. Para as Ligas que estão para lá do Top 5 europeu, será possível falar numa verdadeira concorrência, ou estaremos a falar de uma participação no negócio realizado pelos mais poderosos? A segunda opção parece a mais viável. Entre as Ligas que mais gastam, fora deste circuito de topo, Rússia, Portugal e Turquia ocupam lugares entre as dez mais, modificando-se o ranking no caso das receitas, com Portugal a ser o país que mais lucra fora do Top 5, nas últimas cinco temporadas, seguido de Brasil, Holanda e, em quarto lugar, a Rússia.

As novas regras da FIFA poderão abrir espaço a uma maior garantia de participação das Ligas menores no fluxo de transferências

As novas regras da FIFA poderão abrir espaço a uma maior garantia de participação das Ligas menores no fluxo de transferências, visando impedir a utilização de equipas destes países como eventuais “barrigas de aluguer” de negócios de grandes clubes e empresários. Mas, ao mesmo tempo, parte desta capacidade de obtenção de lucro das Ligas que estão fora do Top 5 também poderá ter nascido, exatamente, dessa sua utilização como meio de maturação de jogadores que visam atingir o topo.

Como mudam as equipas

Olhando para o valor das equipas, na verdade, vai-se assistindo a casos mais recorrentes de conjuntos que alteram o seu valor em espaços de tempo mais curtos. AS Monaco e RB Leipzig, nos últimos anos, fizeram subidas fulgurantes da segunda divisão às competições europeias, graças ao investimento feito no mercado de transferências, ainda que através de processos diferentes. Também se pode olhar para o caso do Paris SG como o de um conjunto que se fortaleceu de forma ímpar, tendo em conta os gastos realizados por comparação com a concorrência na sua Liga.

Ainda assim, se procurarmos transportar estas alterações de valor para o mercado das apostas, o facto de a grande maioria das transferências se realizar entre temporadas, no chamado mercado de verão, permite a análise do valor de cada equipa com tempo e de forma a evitar erros de avaliação. Sendo mais seguro o esperar pelo fecho do mercado, neste momento marcado para 31 de agosto, na generalidade das Ligas, o plantel apresentado por cada equipa nessa data acaba por permitir uma fiel análise do valor do conjunto.

As eventuais alterações de valor não surgem, assim, nas principais equipas, mas podem acontecer em conjuntos de menor nomeada que estejam a fazer temporadas acima do esperado. Na última temporada, em Portugal, podemos analisar os exemplos do Portimonense, que viu sair Paulinho para o FC Porto, ou do Rio Ave, que perdeu Rúben Ribeiro para o Sporting, vendo afetadas as suas capacidades coletivas pela saída de elementos importantes para a dinâmica coletiva da equipa. Estes exemplos são aqueles que mais podem levar a uma diferenciação de valor de uma equipa ao longo da temporada, pelo que, seguindo esta linha de pensamento, a Liga Portugal proibiu o regresso à casa mãe de jogadores emprestados durante o mercado de inverno.

Do sucesso desta última medida, só daqui a uns meses poderemos fazer um balanço. Mas, para quem aposta em equipas, a análise constante dos fluxos de entrada e saída de jogadores, é fundamental para a perceção do valor global da equipa. Sobretudo no mercado de inverno, com menos transferências, mas maior capacidade de alteração do valor global de um coletivo, toda a atenção será pouca para se fazerem boas escolhas.


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