#A_POSTA

Luís Aguilar: A luta das casas de apostas contra o match-fixing

Luís Aguilar

Luís Aguilar é jornalista, comentador e escritor com várias obras publicadas sobre o universo do futebol, entre elas "Aposta Suja": uma viagem ao mundo dos resultados combinados.

21 de Novembro de 2018

Tentar manipular resultados é uma práctica quase tão antiga como o futebol. O primeiro jogo que se sabe ter sido viciado realizou-se em 1915 e opôs o Manchester United ao Liverpool. Jogadores das duas equipas decidiram combinar o resultado a favor do conjunto de Old Trafford. O jogo acabou com 2-0 para o United, sendo ambos os golos marcados por George Anderson. Alguns observadores, porém, estranharam a falta de compromisso de alguns elementos do Liverpool.

A federação inglesa iniciou então uma investigação e concluiu que sete jogadores, de ambas as equipas, tinham participado no arranjo para conseguirem lucrar nas casas de apostas, onde alguns deles tinham colocado enormes somas financeiras na vitória da equipa de Manchester por 2-0. Foi por isso que um dos jogadores do United falhou deliberadamente um penálti quando o seu conjunto já vencia pelos necessários dois golos. Resultado: os sete envolvidos foram banidos do futebol para sempre. Depois da sentença, o jornal The Manchester Daily Dispatch descreveu da melhor forma o que tinha acabado de acontecer: “A inocência do futebol está morta – talvez para sempre.”

Uma ameaça que não dorme

No início do século XX, as casas de apostas não tinham os meios nem os conhecimentos para perceberem se um jogo estava viciado. Na verdade, demoraram algum tempo a acordar para uma práctica que se tornou global com a explosão do jogo online. E não foram caso único nessa lentidão e incapacidade de resposta. No caso do futebol, poderosos organismos como a FIFA e a UEFA só começaram a levar a ameaça a sério na última década. Depois de muitos escândalos, todos perceberam que o match-fixing crescia de forma a poder destruir a essência do jogo e todo o negócio envolvente. Até mesmo as figuras mais suspeitas e controversas falaram publicamente dos seus receios, como aconteceu com o francês Michel Platini no tempo em que presidiu a UEFA: “Se amanhã formos ver um jogo e já soubermos o seu desfecho, o futebol está morto.”

Nestas coisas, como em tantas outras, mais vale tarde do que nunca.

Nestas coisas, como em tantas outras, mais vale tarde do que nunca. E hoje a situação é bem diferente. Casas de apostas, federações, organismos que tutelam modalidades, empresas de segurança, polícias e legisladores trabalham em conjunto no sentido de garantir a transparência no desporto. No que respeita às casas de apostas, tem sido realizado um enorme investimento para proteger os apostadores. São vários os casos em que as autoridades acabam por perceber que determinado jogo foi combinado devido aos alertas dados pelas casas de apostas que imediatamente reagem às movimentações anómalas cancelando apostas para o evento em causa.

Parceiros contra o crime

Outro passo importante em território nacional realizou-se a 18 de Abril deste ano com a assinatura de um memorando de entendimento entre o Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos do Turismo de Portugal (SRIJ) e a ESSA, Sports Betting Integrity.

A ESSA é uma organização sem fins lucrativos composta por operadores de apostas online que passou a facultar ao SRIJ alertas relacionados com apostas desportivas em variados eventos que ocorrem em Portugal. Na práctica, a ESSA está atenta a alguns indicadores, como o elevado número de apostas num curto espaço de tempo provenientes da mesma região. Reúne todos
esses dados e notifica o SRIJ, que passa a ter acesso ao evento, equipa/atleta onde as apostas estão a ser colocadas e aos mercados suspeitos. Com esta parceria, torna-se mais fácil detectar eventos fraudulentos.

Há um maior alerta de todos os envolvidos e as casas de apostas têm feito esforços significativos, na parte que lhes compete, para denunciarem situações passíveis de fraude.

Este memorando, lembra o SRIJ, protege a “integridade das competições” e “salvaguarda a credibilidade dos produtos relacionados com as apostas desportivas, sistemas e clientes dos seus membros”.

Maior controlo, mais segurança

As boas prácticas são também hoje parte da política da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Em 2016, o organismo assinou uma parceria com a Sportradar, empresa líder mundial em serviços de integridade aplicados ao desporto. Trabalha com diversas organizações internacionais na monitorização de eventos desportivos, entre as quais UEFA, a AFC (Confederação Asiática de Futebol), a World Rugby, a ICC (Câmara Internacional de Comércio), a NBA e a NHL (Liga Nacional de Hóquei) e monitoriza cerca de 230 competições de futebol em todo o mundo. A parceria com a FPF, inicialmente ligada apenas ao futebol não profissional, foi alargada no decorrer deste ano e também já chegou ao futsal.

Este é o caminho. Há um maior alerta de todos os envolvidos e as casas de apostas têm feito esforços significativos, na parte que lhes compete, para denunciarem situações passíveis de fraude. As próprias autoridades, ao receber toda a informação de casas de apostas, empresas de segurança e entidades desportivas, também estão mais informadas e preparadas para combater um fenómeno que, muitas vezes, é comandado à distância. O financiamento para viciar resultados no futebol europeu chega a ser proveniente de redes muito poderosas e violentas: grupos criminosos dos Balcãs, máfias italianas, como a Camorra e a Ndrangheta, ou as tríades chinesas. Estas organizações controlam vários agentes, de diferentes nacionalidades, que por sua vez encontram outros para se aproximarem de jogadores, árbitros e dirigentes. Um esquema perigoso e com um raio de acção inesgotável.

Mas existem melhorias, maior atenção, rigor, formação, apoio, sensibilização e maior capacidade de investigação. Pode dizer-se que apostar é mais seguro. No entanto, convém não abrandar e aumentar todas as sinergias e investimento para proteger a integridade do desporto.


BEMJOGADO

Os melhores momentos de CR7 por Portugal

SEGUNDACASA

Taça da Liga:
Uma História de Vitória

OMISTER

Taça da Liga 2019