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José Azevedo: As exigências no financiamento de uma equipa de ciclismo

José Azevedo

José Azevedo é antigo ciclista e atual diretor da equipa de ciclismo Katusha Alpecin.

11 de Janeiro de 2019

O ciclismo é uma modalidade com características singulares e distintas de outros desportos ao nível do financiamento, pois não há uma receita criada para a equipa que lhe garanta uma verba base, como a bilheteira ou os direitos televisivos. Com efeito, todo o financiamento vem dos patrocinadores.

A empresa patrocinadora é a principal investidora na equipa e, logicamente, os resultados desportivos são importantes na definição do financiamento. A primeira razão que traz um patrocinador a apoiar uma equipa de ciclismo é acreditar no projeto e na visibilidade que o ciclismo vai dar à sua marca.

Este é um desporto que está constantemente em competição, com nove a dez meses por ano de exposição televisiva internacional quase diária no canal Eurosport. São inúmeras horas em direto, além do impacto que tem também nas redes sociais e na imprensa. Os patrocinadores aderem ao ciclismo porque veem que é um bom veículo para expor a sua marca, afirmá-la no mercado ou para a dar a conhecer ao público.

O êxito nas provas faz, naturalmente, que a equipa seja mais falada, mais vista e, consequentemente, a equipa depende disso: se o patrocinador estiver contente com o projeto e com o retorno que está a ter do investimento, mantém ou possivelmente investe mais; se achar que não está a ter o retorno que esperava, possivelmente, muda o seu conceito de marketing e faz outro investimento para a promoção da marca. Isso implica a apresentação de um projeto bem elaborado no contacto com os patrocinadores e, sobretudo, convencê-los de que a associação ao nosso projeto vai ser benéfica.

“Os patrocinadores aderem ao ciclismo porque veem que é um bom veículo para expor a sua marca, afirmá-la no mercado ou para a dar a conhecer ao público”

Paralelamente, uma equipa de ciclismo vai muito mais além dos ciclistas que se veem nas estradas por esse mundo fora. Há uma série de despesas que são fixas, independentemente do nível da qualidade dos corredores, se estivermos a falar de uma equipa do World Tour.

Existe uma componente fixa utilizada para a parte da logística: as viagens, uma vez que há sempre viagens para outros países e cada corredor tem a sua residência; a deslocação de viaturas para o lugar da competição – normalmente são quatro carros, um autocarro e um camião; e os custos com combustíveis, hotéis e outras despesas extra que acontecem nas próprias provas, pois o número de pessoas que deslocamos supera quase sempre o número de pessoas que a organização paga.

Além disso há ainda a manutenção dos carros, os custos com comunicações, o aluguer de espaços onde temos instalações, etc. Estas despesas fixas representam, sensivelmente, 30 a 35 por cento do nosso orçamento.

Os outros 70 por cento destinam-se, efetivamente, à constituição da equipa. Se é certo que os valores não diferem muito entre as equipas no staff de direção e apoio, entre os quais se contam os diretores desportivos, mecânicos, massagistas e preparadores físicos, já nos corredores a diferença é decisiva. Quem tem mais dinheiro consegue formar uma equipa bastante mais forte. Aí, a parte financeira faz mesmo a diferença.

“Quem tem mais dinheiro consegue formar uma equipa bastante mais forte. Aí, a parte financeira faz mesmo a diferença”

Em torno do ciclismo existem também já outras receitas associadas, como as apostas. No entanto, as equipas não recebem qualquer receita proveniente desse meio e nenhuma formação do World Tour tem uma casa de apostas como patrocinador. Infelizmente, há uma possível associação a jogos viciados, tal como noutros desportos, como, por exemplo, o futebol.

Porém, há que crer na boa fé e na integridade das pessoas. Custa-me a acreditar e a compreender que alguém venda um resultado a troco de dinheiro. Mas, infelizmente, há sempre alguém que se irá aproveitar desse fator e criar um ruído à volta. É assim a sociedade moderna.


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