#A_POSTA

Duarte Gomes: A Tecnologia na Arbitragem

Duarte Gomes

Antigo árbitro internacional

16 de Agosto de 2018

Agora que a tecnologia do Vídeoárbitro deixou de estar na fase de testes (que durou dois anos) e está plasmada nas Leis de Jogo – começou oficialmente no Mundial da Rússia -, nunca é demais recordar algumas premissas importantes sobre a sua utilização. A Liga Portuguesa está a arrancar e parece-me importante que tenhamos em mente algumas das principais características desta ferramenta.

Então vamos a isso. O nome oficial é VAR – “Video Assistant Referee“. É o árbitro/especialista que terá a missão de ver o jogo, observando todas as imagens disponibilizadas, de forma a identificar, com precisão e clareza, qualquer erro grosseiro, óbvio e evidente que possa ocorrer.

Que erros são esses?

Os que resultem numa das seguintes quatro situações de jogo: golos, pontapé de penálti, expulsões directas ou engano/troca na amostragem de cartões (quanto à identificação errada de jogadores). Isto significa que, caso o VAR detecte um erro claro do árbitro, que não resulte nos quatro protocolados, está impedido de intervir. Ou seja, não pode actuar.

Exemplos práticos:

– Erro na amostragem de segundo cartão amarelo; fora de jogo mal assinalado (sem consequência directa no resultado): advertência por fazer; pontapé de canto mal ajuizado (mesmo que resulte em golo); lançamento lateral mal-executado (mesmo que resulte em golo); pontapé livre contra a equipa defensiva, fruto de clara simulação do avançado (mesmo que resulte em golo), etc. Apesar de poder parecer censurável, o raciocínio que preside a esta opção taõ limitadora/restritiva pode até fazer algum sentido:

– Se todos os lances fossem interrompidos para que cada decisão incorrecta pudesse ser vídeo-avaliada/corrigida, o jogo pararia dezenas de vezes. Isso significaria o fim do futebol tal como o conhecemos: com dinâmica, velocidade e emoção. Recorde-se que a introdução do VAR nunca quis (nem poderia querer) erradicar todos os erros do jogo. Apenas eliminar os mais grosseiros e óbvios, os que interfiram directamente no resultado.

O lema “mínima intervenção, máxima eficácia” faz todo o sentido, pelo menos nesta fase inicial. Com o tempo, pode ser que o protocolo alargue para outras áreas de intervenção. Então sublinhemos: o que se deseja é que o recurso ao VAR seja de carácter absolutamente excepcional e apenas quando os tais quatro lances forem tão claros e óbvios, que não deixem margem para dúvidas. Para ninguém!

Significa isso que muitas das situações a que assistimos na época passada e que resultaram em golos, penáltis ou expulsões não terão sido alvo de revisão porque, para o VAR, foram dúbias, incertas ou cinzentas. Subjectivas. E desde que gere discussão, desde que divida opiniões, fica de fora do escrutínio. Naturalmente que houve erros e muitos, mas esses foram – infelizmente – danos colaterais do risco.

Do risco em introduzir-se uma tecnologia totalmente nova no futebol, que revolucionou por completo a forma como se arbitrava há dezenas e dezenas de anos. Uma tecnologia que requer muito treino, que exige muita habituação, muita sensibilidade por parte dos árbitros e de quem a desempenha.

Recorde-se que a introdução do VAR nunca quis erradicar todos os erros do jogo. Apenas eliminar os mais grosseiros e óbvios, os que interfiram directamente no resultado.

– No jogo, a intervenção do VAR ocorre, em princípio, por solicitação do árbitro, mas ele pode, por sua iniciativa, recomendar àquele a revisão de um lance do qual esteja seguro (ou quase certo) que possa ter havido erro de análise.

Quando o árbitro apita para punir uma infracção, a partida é interrompida e basta que o vídeo-árbitro confirme o acerto da decisão. Mas quando ele entende não punir porque não viu ou não considerou uma acção faltosa, o jogo prossegue.

Nesse caso, se o VAR ficar com a sensação de que houve erro, fará uma revisão, em silêncio, do lance: se entender que houve erro, pede ao seu colega de campo que interrompa a partida assim que possível (em zona neutra, com a bola a meio-campo, por exemplo), anulando tudo o que de técnico aconteceu, entretanto (desde que o jogo não tenha recomeçado). Se, por outro lado, confirmar que o árbitro acertou ou que o lance foi demasiado dúbio, não lhe diz nada e o encontro continua como se nada se passasse.

Nota: o jogo nunca deve ser interrompido quando há um ataque prometedor.

– O VAR ficará junto ao estádio, numa carrinha de exterior ou, preferencialmente, numa zona centralizada (tal como acontece em Portugal, onde fica numa Sala de Operações, na Sede da FPF).

– A função de VAR tem que ser desempenhada por um árbitro, ex-árbitro que tenha abandonado recentemente ou por outro que tenha abandonado há mais tempo, mas que ainda esteja ligado à arbitragem. Deve ter, no mínimo, o mesmo estatuto e categoria do seu colega de campo.

A partir desta época (2018/19), existirão quatro VAR especialistas em Portugal (a desempenhar essa função em exclusivo), depois de terem abdicado da sua carreira de árbitros. São eles Bruno Paixão, Bruno Esteves, Luís Ferreira e Vasco Santos. Além deste, todos os que estão no activo e que pertencem à primeira categoria, também poderão ter essa missão a seu cargo.

– Em cada jogo, o VAR será apenas mais um assistente. A decisão final caberá sempre ao chefe de equipa (o árbitro de campo), que pode optar por aceitar logo a sua recomendação ou revê-la em campo (num écran, em zona já definida, afastada de público e bancos técnicos).

A recomendação é que aceite, de imediato, a indicação do VAR se o erro que cometeu for absolutamente factual e objectivo. Por outro lado, deve sempre rever a imagem junto ao relvado se o lance depender do seu critério, se for mais subjectiva ou menos clara.

A função de VAR tem que ser desempenhada por um árbitro, ex-árbitro que tenha abandonado recentemente ou por outro que tenha abandonado há mais tempo, mas que ainda esteja ligado à arbitragem.

– A função de VAR requer formação contínua, para que este possa aliar à serenidade do discurso e imunidade à pressão exterior, o conhecimento profundo das leis, a fluidez de comunicação e, sobretudo, a eficácia da decisão no menor tempo possível.

São características pessoais e profissionais muito específicas, que nem todos têm. É fundamental que o técnico de imagem que o acompanha na Sala de Operações seja também alguém com idêntica sensibilidade (para passar as imagens que o VAR lhe solicite de forma rápida, intuitiva e com os melhores ângulos possíveis). Essa cumplicidade profissional é fundamental para que tudo decorra de forma célere e eficaz.

– Em cada jogo há também um AVAR (Assistente de VAR), que tem funções específicas de apoio ao vídeoárbitro principal.

– As comunicações entre quem está na Sala de Operações e quem está no terreno de jogo é assegurada através de um sistema (SCA) encriptado e fidedigno. Imune a interferências externas.

– A partir desta época, os Vídeoárbitros utilizarão oficialmente a chamada “linha de fora de jogo”. Pelo menos, essa é a intenção da FPF, que decidiu investir nessa área.

Será o primeiro sistema credenciado pela FIFA (já utilizado no Mundial da Rússia) e independente de quaisquer operadores televisivos. Sempre que uma decisão for alterada com base nessa tecnologia, o espectador em casa terá, à partida, acesso à imagem que motivou essa alteração. No estádio pode também ter, se essa for a opção do CA. Venha o campeonato, venham as boas decisões e venha a capacidade de perceber que o erro de árbitros, jogadores e treinadores, jamais deixarão de ocorrer.


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